Silagens de Capins Tropicais

A estacionalidade na produção de forragem é uma realidade recorrente em todos os sistemas de produção animal em pastejo. Conservar o excedente de produção, que ocorre durante o período das águas, para fornecimento aos animais na época da seca é uma estratégia que visa à manutenção da oferta de forragem de alta qualidade durante todo o ano, garantindo a demanda dos animais, permitindo o aumento da eficiência da utilização das pastagens. A silagem é um dos recursos forrageiros mais utilizados na produção de ruminantes, principalmente na época de baixo crescimento da pastagem. O processo de ensilagem é uma forma de conservação de alimentos através da fermentação microbiana, em condições de anaerobiose. No processo de ensilagem, carboidratos solúveis são convertidos em ácidos orgânicos pela ação de microrganismos através da fermentação, que encontrando ambiente ideal, proliferam e criam condições adequadas à conservação. Os ácidos produzidos diminuem o pH do material, impedindo a ação de microrganismos decompositores.

O estudo da silagem de capim na alimentação de bovinos no Brasil não é recente, mas seu uso vem ganhando espaço atualmente. Plantas forrageiras tropicais apresentam limitações ao processo de ensilagem, por possuírem baixos teores de matéria seca, de açúcares solúveis e elevados valores de poder tampão, que consiste na resistência à redução do pH. Todavia, quando a forragem tem boa qualidade para ser ensilada, o teor de umidade é muito elevado, podendo chegar a mais de 85%, o que favorece a fermentação butírica e a elevada produção de efluentes.

Dentre as gramíneas forrageiras tropicais, o capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum) foi o mais estudado. De modo geral, os resultados mostraram que esta espécie está entre as gramíneas que apresentam teor de carboidratos solúveis mais elevado, variando de 9 a 16% na matéria seca, o que é suficiente para garantir razoável fermentação lática. Também foram feitos, na década de 70, alguns estudos com outras gramíneas forrageiras tropicais: capim-braquiária (Brachiaria decumbens Stapf), capim-colonião (Panicum maximum Jacq.), capim-gamba (Andropogon gayanus Kunth), capim-jaraguá (Hyparrhenia rufa Ness) e capim-pangola (Digitaria decumbens Stent). Na maioria das espécies, foi constatado teor muito baixo de carboidratos solúveis, em torno de 6% na matéria seca, insuficiente para garantir boa fermentação lática.

Atualmente, sobretudo por causa da necessidade de a pecuária de corte se tornar mais competitiva, com redução de custos e aumento da produtividade, a silagem de capim vem ocupando espaço crescente na preferência dos produtores. Estima-se que a silagem de capim já responda por um terço do volumoso utilizado nos confinamentos. Contribuiu também para isso o surgimento de colheitadeiras mais eficientes, que picam a fibra do capim em tamanhos de até 3 a 5 cm, facilitando a compactação, a fermentação, a retirada do material do silo e a sua mistura com o concentrado.

Ainda que os diversos capins, diferentemente do milho, possam apresentar problemas que interfiram na fermentação, eles têm vantagens que os tornam estrategicamente interessantes como reserva de alimento para a seca, na forma de silagem, tais como elevada produção, perenidade, menor custo por quilograma de matéria seca, baixo risco de perda e maior flexibilidade na colheita.

O momento ideal de corte é um dos grandes desafios na confecção de silagens de capins, e deve ser feito quando a planta se encontra com teores acima de 20% de matéria seca e quantidades satisfatórias de nutrientes e carboidratos fermentáveis, os quais serão usados em parte pelas bactérias responsáveis pela produção de ácidos no material ensilado e gerando a queda do pH, preservando o material. Caso o material seja colhido muito cedo, há produção de efluentes (chorume) que carreiam grandes quantidades de nutrientes e apresentam grande potencial poluente. A colheita do capim mais seco, em estado de desenvolvimento muito avançado, acarreta menor disponibilidade de nutrientes prejudicando a fermentação, e alto teor de fibra na silagem.

No ponto de colheita ideal para o processo de ensilagem, a forrageira se encontra com menor teor de umidade e concentração de nutrientes satisfatória. Porém, para a correta confecção das silagens nessas idades de corte é obrigatório o controle do excesso de umidade, o que pode ser feito com o emurchecimento da forragem ou o uso de aditivos absorventes.

Uma importante variável que muitas vezes é negligenciada, por falta de conhecimento ou descuido, é o tamanho médio de partícula. Cuidados devem ser tomados para assegurar boa picagem do material, o que vai favorecer a fermentação e o consumo dos animais. Alguns fatores importantes: afiação das facas e ajustes das contra facas, executadas a cada 20 horas de trabalho ou quando a partícula estiver aumentando; eliminar folgas de acoplamento da ensiladeira com o trator; manter a velocidade do trator e a rotação da tomada de força que permita o corte uniforme. O tamanho de partícula deve ser monitorado durante todo o período de colheita, o que pode ser feito com o auxílio do conjunto de peneiras nomeadas “Penn State Particle Size Separator” ou similar, ou ainda de forma manual. Partículas de tamanho elevado dificultam a compactação impedindo a expulsão do ar (oxigênio) fazendo com que bactérias aeróbias permaneçam ativas por mais tempo provocando aumento da temperatura da massa e consumo de carboidratos solúveis. Para silagens de capim recomenda-se tamanho médio de partícula entre 8 - 30 mm. A redução extrema no tamanho de partícula pode promover maior consumo total de matéria seca pelo animal, devido ao aumento na taxa de passagem, porém pode ser prejudicial para vacas de alta produção.

A compactação é uma etapa importante na confecção da silagem, pois é através dessa prática que o ar é retirado do espaço entre as partículas de silagem, sendo que quanto mais rápido e eficiente for essa etapa, melhor será a qualidade do produto final, com maiores teores de ácido lático, açúcares residuais e menor teor de nitrogênio amoniacal, sinônimo de degradação da fração proteica. A compactação ideal deve permitir atingir massa específica de 600 kg/m3, porém em caso de alto teor de unidade e compactação seja excessiva, pode haver aumento na produção de efluente, e consequente aumento nas perdas. Se o capim for corretamente emurchecido ou aditivado, esse efeito não ocorrerá.
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