Conceitos básicos da produção de feno

A conservação e o armazenamento de forragens são atividades prioritárias de um sistema intensivo de produção de bovinos. O propósito da fenação é obter uma forragem desidratada de alta qualidade, combinando as propriedades químicas, físicas e biológicas que afetam o consumo, digestão e utilização.

Para produzir um bom feno pelo menos duas condições são necessárias: a forragem deve ser de boa qualidade e a secagem feita com um mínimo de perda de nutrientes, através de uma secagem rápida, levando a planta à sua inatividade.

O processo de fenação envolve a remoção de água da planta para níveis que ocorrerá a restrição das atividades microbiana. De um modo geral uma planta apresenta teor de água entre 75 e 85 % (15 a 25 % de matéria seca) durante a fase de crescimento vegetativo, de 65 a 75 % de água durante a fase de floração e 55 % na fase de sementes maduras. Durante o crescimento vegetativo as plantas forrageiras vão perdendo o valor nutritivo e à medida que passam para o crescimento reprodutivo (floração) o teor de água decresce acentuadamente. Contudo cortar uma planta muito jovem não é interessante, pois a produção de matéria seca é baixa pois o desenvolvimento da planta segue o modelo sigmoidal com a idade da planta.

O processo de secagem começa quando a planta é cortada. Alterações mecânicas no tecido da planta aumentam a taxa de secagem pela ruptura dos tecidos (células) facilitando o movimento de água e aumentando a superfície de evaporação. Portanto, secagem mais rápida, por um ou outro processo, determinará menores perdas pelo processo de respiração celular e consequentemente obtêm-se uma forragem conservada com valor nutritivo mais elevado.

A composição bromatológica e o valor nutritivo de uma forragem em um determinado momento são os resultados dos fatores do meio e do potencial genético. Os fatores genéticos determinam as espécies de plantas, os cultivares dentro das espécies e o tipo de crescimento. Alguns fatores do meio que afetam a forragem são: clima, solo, manejo, pragas e doenças, entre
outros, sendo praticamente impossível quantificar o efeito de cada um separadamente.

O estágio de desenvolvimento ou a maturidade de uma planta é um fator importante na determinação da composição bromatológica da forragem. Durante o crescimento vegetativo, a planta tem uma alta proporção de folhas, é suculenta e tem alto conteúdo de umidade, proteína e minerais, e baixo em fibras e lignina. Com o avanço do estágio de crescimento vegetativo para reprodutivo sofre várias alterações, em resposta a função das características genéticas e é controlada pelo comprimento do dia e temperatura. As mudanças morfológicas que ocorrem durante esta fase são alongamento do caule, queda das folhas e aumento de produtos fotossintéticos. A porção citoplasmática de cada célula torna-se menos importante e a porcentagem de muitos constituintes, tais como proteínas, lipídios, carboidratos solúveis e minerais solúveis decrescem. As paredes das células tornam-se relativamente mais importantes e os constituintes fibrosos aumentam e tornam-se mais lignificados. A matéria seca total aumenta segundo o modelo sigmoidal, mas ocorre um progressivo decréscimo em qualidade, particularmente na digestibilidade.

Um importante fator que determina a qualidade do feno é a relação folha-caule ou a proporção de folhas na forrageira. No primeiro estágio de desenvolvimento, em certas gramíneas verificou-se que, quando os perfilhos estavam quase todos floridos, 38,2% era lâmina de folhas, 23,2% de bainha, 36,6% de caule e 12% de inflorescência, em relação ao total de matéria seca da parte aérea. No estágio final de desenvolvimento, em que quase todas as inflorescências estavam maduras, as porcentagens foram 10,0, 11,2, 38,7 e 40,1% respectivamente. Estas variações refletem o aumento em caule e em inflorescência e o decréscimo em folhas. A composição bromatológica também sofreu variações. A proteína das folhas caiu de 11,6 para 6,6% e do caule de 4,4 para 2,8%. A fibra aumentou em todas as partes, ligeiramente nas folhas, mas acentuadamente no caule (de 33,8 para 41,6%).

A produção acumulada de matéria seca cresce segundo o modelo sigmoidal com a idade da planta enquanto, o valor nutritivo decresce quando a planta passa da fase de crescimento vegetativo para reprodutivo. Cortes no início da fase de crescimento vegetativo trariam como desvantagens, menor rendimento forrageiro e ainda alto teor de umidade da forrageira. Assim como, cortes durante a fase de crescimento reprodutivo teriam como desvantagens, maior lignificação das células e menor digestibilidade da proteína.

A época ideal de corte seria aquela em que a forrageira estaria mais adequada para a fenação, sob o aspecto qualitativo e quantitativo. Portanto esta época não pode ser definida em termos somente de crescimento ou de datas de cortes pré-fixadas, mas sim em períodos de descanso da cultura, condições locais do meio, aspectos econômicos etc. Convém, então enfatizar que a qualidade da forragem frente à época do corte é de importância primária na qualidade do feno.

O processo de secagem começa quando a planta é cortada. A taxa de secagem depende da diferença entre a pressão de vapor exercida pela água interna próxima a superfície e a pressão de vapor de água no ar. Fatores que afetam a pressão de vapor são a temperatura, concentração de substâncias dissolvidas, movimento de água dentro dos tecidos e movimento do ar. Quando a diferença alcança zero, a transferência de umidade cessa e ocorre um estado de equilíbrio entre o feno e a umidade do ar.

Alterações mecânicas causadas ao tecido aumentarão a taxa de secagem pela ruptura das células, facilitando o movimento de água e aumentando a superfície de evaporação. Secagem mais rápida, por um ou outro processo, determinará menores perdas na respiração e em algumas culturas haverá menor perda mecânica das folhas devido a uma uniformização na secagem de folhas e caules.

Algumas operações práticas no campo, tais como viragem ou revolvimento, ajudam a acelerar a secagem, como também a aplicação de calor por vários modos e práticas. Dependendo da temperatura e da técnica usada, perdas no valor nutritivo são usualmente reduzidas pela secagem através do aumento moderado da temperatura. Mas as perdas podem ser aumentadas por altas temperaturas, particularmente os carboidratos digestíveis e a digestibilidade da proteína.

Forragem verde, dependendo de seu estagio de crescimento e outras variáveis, contêm cerca de 55 a 85% de água e deve ser reduzida pela secagem para 13-15%. A taxa de secagem não tem um valor constante, mas é provavelmente proporcional à diferença na saturação, exceto no estádio final. A secagem continuará até que a diferença em saturação alcance o ponto mais baixo, ou seja, o ponto em que o conteúdo de água da forragem estiver em equilíbrio com a umidade do ar. A respiração é ativa durante este tempo, mas em seguida diminui progressivamente. Muitos pesquisadores têm estudado a respiração durante esta fase. Em gramíneas e leguminosas cortadas a uma temperatura de 20,5º C e no escuro, o consumo de oxigênio foi maior que a produção de CO2 no princípio do emurchecimento. Quando a umidade diminuiu, a taxa respiratória caiu rapidamente e em alguns casos, como nas gramíneas que haviam alcançado 20% de água, a proporção foi inversa, ou seja, havia maior consumo de O2 e menor produção de CO2. Abaixo de certo grau de umidade a respiração cessa, variando de 33 a 38% de água.

A principal mudança na composição química refere-se a perda de carboidratos mais solúveis. Como estes carboidratos são de alta digestibilidade, a perda no valor nutritivo é maior que a perda de matéria seca considerada isoladamente. As perdas em açúcares e ácidos orgânicos foi demonstrada várias vezes. Por exemplo, ocorre decréscimo de 7 para 3,7% nos açúcares totais (base MS) em leguminosas, em seu primeiro corte e mantida a temperatura de 27ºC. A maior perda é de glicose e frutose, mas há algum decréscimo também de sacarose. Ocorre pouca variação no teor de hexoses após a secagem de uma gramínea por 24 horas, mas significativa perda em sacarose (6,2 para 5,4%) e frutose (9,6 para 5,2%), o que evidencia a hidrólise e a respiração de hexoses livres. A frutosana em uma gramínea decresce, hexoses não mostraram perdas e a sacarose aumenta. Este último fenômeno é explicado pela sua síntese durante o período de murchecimento.

Os estudos têm demonstrado que um bom equipamento concorre para reduzir o custo de mão de obra e para melhorar a qualidade do produto. O feno seco mais rapidamente, distendido e espalhado do que em leiras, mesmo que estas sejam espalhadas e frouxas. Quanto maiores forem as leiras, tanto mais lenta será a cura sendo, esta última mais lenta ainda, quando se dispõem as forrageiras para secar em pequenos montes.

Embora o feno se cure mais rapidamente estando espalhado, não é aconselhável curá-lo totalmente dessa forma, exceto no caso de fenos de gramíneas quando o tempo estiver frio e seco. Realizando-se a cura total desse modo, as folhas se tornam secas e quebradiças muito antes que as

hastes estejam suficientemente secas. Em se tratando de leguminosas, haverá grande perda de folhas ao ser o feno manipulado. A exposição prolongada de feno ao sol também o tostará destruindo grande parte do caroteno.

A disposição de forragem verde em leiras, embora pequenas e frouxas, imediatamente antes do preparo das medas, prolongará o tempo necessário para a cura do feno exceto em um clima muito seco. A cura realizada lentamente aumenta o risco de prejudicar a fenação no caso de chuvas. O enleiramento da forragem verde dá margem aos acidentes, com fermentações e emboloramento do feno.

Para preparar um feno de qualidade, folhudo e verde, deve-se proceder da seguinte maneira:

a) ceifar pela manhã, bem cedo, pois não há necessidade de retardar o corte por causa do orvalho. As forrageiras ceifadas logo cedo, embora úmidas pelo orvalho apresentam-se mais secas à tarde do que as ceifadas em horas mais avançadas do dia;

b) em seguida proceder ao acondicionamento quantas vezes necessárias - mínimo de duas passagens;

c) deixar a forragem espalhada por algumas horas, até que ela fique parcialmente curada;

d) ceifar apenas a quantidade que se puder manejar convenientemente, sob as condições comuns de tempo;

e) antes que haja perigo de desprendimento das folhas, a forragem deve ser amontoada, em pequenas leiras, frouxas, de preferência, com um ancinho de descarga lateral;

f) caso o tempo esteja propício à fenação, a cura deverá prosseguir nessas leiras, sendo o feno daí enfardado;

g) a cura do feno processando lentamente por causa do tempo, poderá ser conveniente, após algumas horas, revirar parcialmente as leiras para apressar a secagem. Este revolvimento ainda poderá ser necessário se o feno estiver molhado por causa das chuvas.

Outras perdas na qualidade do feno ocorrem quando o feno, após secagem, é armazenado. Uma série de trabalhos indicam que perdas na matéria seca aumentam com a temperatura de armazenagem e com o conteúdo de umidade do feno. Entre 18 a 7ºC a 12 % de umidade as perdas foram insignificantes. A 36º C e 18 % de umidade a perda de matéria seca foi de 8 % durante 9 meses de armazenamento. As perdas foram principalmente, de açúcar, outros carboidratos solúveis e alguns lipídeos possivelmente, por desenvolvimento de fungo.

As perdas podem resultar da oxidação na presença de ar, enzimas ou microrganismos. Atribui-se a hidrólise de sacarose de feno estocado à 25ºC de temperatura e umidade relativa do ar de 76%, à atividade enzimática. Isto porque o feno não foi aquecido acima de 45ºC durante a secagem. As hexoses desapareceram, mas somente na presença de oxigênio e isto foi atribuído ao desenvolvimento de fungo.

Feno contendo 16 % de água a temperatura subiu muito pouco e microflora foi muito pouco diversa. Feno com 25 % de água causou elevação da temperatura a 45º C e houve desenvolvimento de mofo, principalmente de Aspergillus glaucus. Com 40 % de água a temperatura alcançou 65ºC e continha grande número de fungos termofílicos.

A fermentação resulta em perda de açúcares e formação de bases voláteis de nitrogênio, que tendem a elevar o ph. Verificou-se que feno com mais de 30% de umidade não é adequado para armazenamento e como consequência há decréscimo na digestibilidade, particularmente da proteína. E ainda os açúcares e algumas proteínas decrescem no feno estocado, mas a maior perda relativa foi de caroteno; 81% do caroteno desapareceu após seis meses de armazenamento.

Aquecimento espontâneo da massa a ser fenada, conduz o aparecimento de material de cor marrom. A composição deste feno é semelhante a um feno de qualidade pobre. Contudo, se o calor produzido levar ao aparecimento de cor escura, há acentuada queda nos carboidratos digestíveis e consequentemente aumento no teor de fibra.

Usa-se fazer o enfardamento do feno no momento de retirá-lo das próprias leiras com enfardadeira, é necessário que sejam tomadas determinadas precauções. O feno deve estar um pouco mais seco que o comum. É preferível que sua umidade esteja entre 20 e 22 %. Os fenos de leguminosas, excessivamente secos, antes do enfardamento perdem considerável quantidade de folhas. O enfardamento nas próprias leiras evita boa parte da perda das folhas.

Para permitir a ventilação nas pilhas de fardos estes devem ser colocados na primeira camada, de lado. A camada seguinte será constituída de fardos depositados sobre os lados maiores e assim sucessivamente, conservando os ângulos retos. Os fardos não devem ser colocados juntos, pois é necessário deixar um bom espaço entre eles. Todo feno solto deverá ser retirado no topo das camadas de fardos antes de depositar a camada seguinte.
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