Amonização no tratamento de volumosos para ruminante

Forragens, em geral, apresentam estrutura complexa em sua parede celular, composta, principalmente, das frações de celulose, hemicelulose e lignina. A associação da lignina com as outras duas frações é responsável pela baixa digestibilidade de muitas forragens. Os constituintes da parede celular são passíveis de utilização por animais ruminantes. No entanto, alguns constituintes apresentam componentes de baixa digestibilidade ou quase indigerível, que preenchem espaço no trato gastrintestinal dos animais, podendo limitar o consumo e o desempenho dos mesmos.

Diversos recursos têm sido testados visando melhorar o aproveitamento de forragens de baixa qualidade, como tratamentos físicos, químicos ou biológicos, suplementação ou a combinação deles. Uma alternativa viável para melhorar o valor nutritivo desses volumosos é o tratamento dos fenos com produtos químicos, sendo mais utilizados os hidróxidos de sódio, potássio, cálcio e amônio, a amônia anidra e a ureia como fonte de amônia. Dentre os tratamentos químicos avaliados, principalmente com palhas ou resíduos de culturas e, mais recentemente, com fenos, destacam-se o uso da amônia anidra (NH3) ou da ureia, processo denominado de amonização.

O processo de amonização apresenta diversas vantagens e desvantagens, principalmente no que se refere a escolha do produto a ser utilizado no processo. O hidróxido de sódio é apontado como o mais eficiente, porém de difícil aplicação, alto custo, além de proporcionar riscos de contaminação ambiental, sendo uma alternativa a esse produto o hidróxido de cálcio, porém possui menor eficiência. O mesmo ocorre com a amônia, sendo a ureia a alternativa por apresentar eficiência semelhante, menor custo, aplicação facilitada e não prejudicar a saúde.

A amônia anidra é o nome químico dado ao composto que apresenta um átomo de nitrogênio e três de hidrogênio (NH3). Possui teor elevado de nitrogênio (82%) e, normalmente, é encontrada no estado líquido sob baixas temperaturas ou pressões relativamente altas. A ureia (NH2CONH2), que, por sua vez, possui, em média, 44% de nitrogênio, é encontrada na forma sólida e necessita de umidade e presença da enzima urease para que possa produzir 2NH3 + CO2, para cada molécula de ureia.

A utilização desses compostos alcalinos em volumosos tem efeito na parede vegetal chamado de ureólise. A ureólise é uma reação enzimática que requer a presença da enzima “urease” no meio. A urease é praticamente ausente nas palhas ou material morto, como os capins secos. A urease produzida pelas bactérias “ureolíticas”, durante o tratamento de resíduos, tais como as palhadas, é suficiente, pelo menos em determinadas condições onde a umidade não é limitante. Somente em casos específicos de forragens muito secas, e que não possam ser umedecidas, a adição de urease seria necessária. A umidade e a temperatura, e suas interações, devem favorecer a atividade da bactéria e de sua enzima.

O tratamento de forragens ricas em lignina e celulose com amônia anidra teve início na primeira década do século passado. Na década de 70, os trabalhos foram bastante desenvolvidos na Europa e, nesta mesma década, foram iniciados nos Estados Unidos. No Brasil, os trabalhos de pesquisa tiveram início em 1984.

Três reações podem ocorrer com a adição de amônia em volumosos, ressaltando que os mesmos processos podem ocorrer com ureia após transformação em amônia. A primeira reação, definida pelos autores como a de maior importância, é a reação de amoniólise, onde ocorre reação entre a amônia e um éster, produzindo uma amida. Essas ligações do tipo ésteres podem ser encontradas entre a hemicelulose ou a lignina com grupos de carboidratos estruturais. A segunda equação baseia-se na característica da amônia em apresentar alta afinidade com a água, resultando na formação de uma base fraca, o hidróxido de amônio (NH4OH), durante o tratamento de forragens úmidas com esse composto. A terceira reação seria a hidrólise alcalina das ligações tipo éster, que ocorre na sequencia do processo da segunda reação, onde a base fraca, NH4OH, proporciona hidrólise alcalina resultante da reação do hidróxido de amônio com as ligações ésteres entre os carboidratos estruturais da forragem.

A análise dos dados com amonização de fenos de Brachiaria decumbens e análise dos resultados com amonização de fenos de Brachiaria brizantha cv. Marandu sugerem que a atividade ureática dos fenos dessas plantas colhidas no estádio de pós-florescimento é suficiente para desdobrar a ureia aplicada, desde que os conteúdos de umidade não limitem a atividade da enzima. Os autores relatam a necessidade de mais estudos a fim de definir essa umidade que ficaria em torno de 20 a 30%.

Por sua vez, ao se avaliar o efeito da amonização sobre o feno de Festuca arundinacea Schreb., verificou-se a ação da amônia sobre as ligações do tipo ésteres com a consequente redução na absorbância para os comprimentos de ondas relativos às ligações do tipo ésteres e aumento nas ligações amidas. Os pesquisadores salientaram que as modificações nas propriedades de absorbância no feno tratado resultaram da quebra de ligações do tipo ésteres por meio de uma reação “amoniólise”, com a consequente formação de amidas.

A alta afinidade da amônia com a água promove expansão da parede celular e ruptura de componentes dos tecidos de forragens amonizadas, que podem ser constatados por meio de estudos de microscopia eletrônica. Além desse efeito sobre a fibra, o qual aumenta a disponibilidade de carboidratos prontamente fermentescíveis para os microrganismos do rúmen, a amonização eleva o conteúdo de nitrogênio não proteico dos volumosos de baixa qualidade. O resultado é um aumento significativo (8 a 12%) na digestibilidade da forragem tratada.

Além de melhorar o valor nutritivo, a amonização pode ser utilizada no controle de microrganismos indesejáveis ao processo de fenação ou ensilagem. Na literatura são apresentados relatos da presença de fungos em fenos, principalmente em função do armazenamento com umidade superior a 20%, o que implica em deterioração do volumoso podendo ocasionar problemas sanitários nos rebanhos e até prejuízos à saúde humana.

Na suplementação de ruminantes, alimentados com volumosos de baixa qualidade, o consumo total de matéria orgânica digestível depende da adequada relação entre a proteína degradável no rúmen e a matéria orgânica digestível, presentes na dieta do animal, a otimização dessa relação permite aumentar o consumo e a digestibilidade, em decorrência de alterações do ambiente ruminal, que resultam em melhor desempenho produtivo e reprodutivo dos animais, sendo que o aumento do consumo pode estar associado ao suprimento de N, em quantidades adequadas à manutenção da atividade microbiana.

Dessa forma, em condições onde são utilizadas forragens de baixa qualidade, o primeiro fator nutricional limitante do desempenho animal é a disponibilidade de energia e, para os microrganismos ruminais, a disponibilidade de proteína e minerais. Sendo, portanto, de grande importância otimizar o ambiente ruminal, visando melhorar a utilização dos alimentos fibrosos. A otimização do ambiente ruminal depende, basicamente, do adequado fornecimento de substratos que permitam a manutenção e o crescimento da microbiota ruminal. No caso de alimentação volumosa de baixo valor nutritivo isto pode ser conseguido pela utilização de suplementos (Mallmann et al. 2006).

Nesse sentido, a utilização de amônia no tratamento do feno de resíduo de pós-colheita de sementes mostra-se como alternativa eficiente na alimentação de bovinos confinados e proporcionou a produção de carcaças com acabamento desejável ao processo produtivo de carnes. Além disso, pode-se afirmar ainda que a suplementação de bovinos com farelo de algodão e feno colhido em estágio pós-florescimento amonizado, mostrou-se como alternativa melhor quando da utilização de fenos de baixo valor nutritivo sem qualquer tratamento químico.

Portanto, o desempenho dos animais alimentados com resíduos agroindustriais amonizados pode ser viável do ponto de vista técnico, desde que componha uma dieta nutricionalmente equilibrada. Há de se considerar que apenas o tratamento químico do volumoso não resolve todos os problemas inerentes ao mesmo. Necessita-se desta forma que essas estratégias estejam inseridas num planejamento alimentar onde se considera a disponibilidade da matéria-prima (volumoso) e dos produtos para a amonização a um baixo custo, bem como dos demais componentes necessários para compor a dieta.
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